Antônio

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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Fim dos comentários Anônimos e o e-mail do Mauro

No post sobre a cadeirinha de rodas de Antônio, recebi comentários de um Anônimo, que criticou duramente o fato de eu sofrer muito com a nova condição de meu filho, me chamando inclusive de preconceituosa e dizendo que Deus errou feio ao me escolher como mãe de Antônio. Respeito a opinião de todos, mas, resolvi que a partir de agora, a pessoa vai ter que se identificar caso ela queira realmente expor suas ideias. Esse é um blog que faço para que meu filho, no futuro, leia e continue a escrever.

Por causa do comentário dessa pessoa covarde, recebi um e-mail do Mauro, que me autorizou reproduzir na íntegra aqui pra vcs. O e-mail é longo, mas, a leitura é muito válida. É a visão de um adulto cadeirante. Ele deixa claro que é a história de vida dele. Como eu falei para o próprio, espero que meu filho não passe nem pela metade do que ele passou. Mauro, obrigada por sua participação. Torço muito para que vc seja verdadeiramente feliz!



Olá Yanna, me chamo Mauro, sou portador de mielomeningocele, tenho 36 anos, funcionário público, cadeirante desde que me entendo por gente.
Vi o post sobre a cadeira de rodas do Antônio quando coloquei no google uma pesquisa para trocar a minha própria, nunca havia estado em seu blog, vi o comentário postado pelo Anônimo e resolvi ler todo o blog antes de te escrever. Depois de toda a leitura, resolvi escrever para você e te mostrar como é a real vida de um cadeirante.
Eu vi a minha mãe em você. Como vocês são parecidas!
O anônimo relata que o filho não anda, não fala, mas que é feliz, ele também é a felicidade em pessoa. Quero deixar claro que essa é a minha história de vida, não quero desmerecer quem teve trajetória diferente da minha.
Quando minha mãe deu a luz a mim, veio a surpresa da mielo, na época tudo era muito precário. Meu pai não recebeu bem a notícia, o casamento deles acabou e minha mãe passou a me criar praticamente sozinha. Ela lutou com todas as forças para que eu tivesse o melhor em matéria de tratamento. Com o tempo veio a certeza de que eu não andaria. Tornei-me oficialmente cadeirante aos 8 anos, que foi quando conseguimos comprar minha primeira cadeira. Minha mãe me levava para todo lado no colo. Aos 5 ou 6 anos, já percebia o olhar diferente de todos para mim.
Foi nessa época que senti que era diferente.
Quando a cadeira chegou, minha mãe me olhou, não disse nada, perguntou se eu estava confortável, pediu que eu rodasse com a cadeira e foi ao banheiro. Lembro-me dela ter demorado tempo demais por lá. Quando ela saiu, ela evitou me olhar, mas, pude perceber que ela estava chorando. Senti-me péssimo. Não comentei nada.
A realidade de ser cadeirante chegou pra mim com uma força brutal. Sentado na cadeira, tive uma nova perspectiva de vida, senti a dificuldade de perto, não só de locomoção, mas, de relação interpessoal. As pessoas ou me evitavam, ou me tratavam de maneira exacerbadamente gentil. Não existia um tratamento natural.
Veio o colégio e com ele muitas mudanças. Ser um adolescente cadeirante é algo difícil demais. Os jovens são cruéis demais com o diferente. Aos 17 anos, perdi minha mãe de forma repentina. Nunca senti tanta dor quanto naquele dia. Tentei o suicídio depois de ouvir minha família sem saber o que fazer comigo. Quem tomaria conta do aleijado?
Entregaram-me a meu pai. Prefiro pular essa parte. A única coisa que quero que você saiba, é que meu pai morava no subsolo de um prédio, sem elevador e me disse que se eu quisesse estudar, que desse um jeito de subir e descer as escadas. Eu dava meu jeito. Sempre chegava muito sujo na escola por conta disso, o que afastava ainda mais as pessoas.
Formei-me, consegui passar num concurso público, sai da casa do meu pai, tenho um carro, o que facilita muito a minha vida, mas, nunca consegui uma namorada.
Você me pergunta se sou feliz? Tenho meus momentos. Você me pergunta o que eu acho de ser cadeirante? Acho uma droga.
O que quero dizer a esse anônimo é: cara, você não sabe nada da vida, você não tem ideia do que é viver preso a uma cadeira. Você não imagina como é horrível ver seus primos irem pra balada, pra praia, sair com garotas e você ficar num canto. É isso mesmo, cadeirante sempre fica nos cantos.
Antes de pensar em falar palavras tão duras para uma mãe incrível como essa, coloque-se no lugar. Essa sua felicidade tão falada é uma farsa. Você é uma farsa. Você sequer sabe o que é preconceito cara. Se você viu algum preconceito nas palavras dessa mãe, na verdade você está vendo uma imagem refletida que é a sua mesma. O preconceito está ai dentro,  tão podre quanto o seu julgamento.
Sem mais.

9 comentários:

  1. Em primeiro lugar gostaria de agradecer ao Mauro por ter escrito esse email, que apesar de ter sido destinado à Yanna, é uma lição de vida a todos que leem o blog. Eu leio, nunca comentei, mas leio. Resolvi comentar hoje pra demonstrar o respeito por mães guerreiras como você, Yanna. Um dos meu filhos tem alergia alimentar múltipla e eu já consigo perceber os olhares e comentários que o Mauro mencionou no email (ou ele é o coitadinho ou ignoram). Sem contar a dificuldade que é você sair pra uma festa ou ir num restaurante e não ter nada que ele possa comer. Portanto Yanna e Mauro admiro a coragem e força de vontade de vocês. É de pessoas assim verdadeiras, que correm atrás da felicidade que o mundo precisa. O resto é o resto.

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  2. Yanna, muito enriquecedor ler esse mail do Mauro, sob a perspectiva dele, de cadeirante. Meu pai ficou "ileostomizado" (falam colostomizado, mas na verdade ele hj vive só com o intestino delgado e uma pequeníssima parte do grosso, 10 cm) por quase 1 ano (com aquela bolsinha na barriga) e vimos como era difícil a inserção dele naquela época. Nem os hospitais sabiam como lidar, os profissionais se recusavam... Mas eu sempre digo q o diferencial está na forma como cada um encara a situação - se é um problemão insolúvel ou uma situação que pode ser vivida com boas perspectivas. Parabéns ao Mauro pela superação, pelos estudos, pela aprovação e pelo exemplo.
    Com certeza, seu blog muito nos acrescenta e cumpre o papel de nortear outras mães, amiga!
    Bjão, Fabi

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  3. Muita massa, Yanna!! Pelo menos certos comentários levaram a desabafos como esse, né??
    Eu acho que reconhecer nossa humanidade não é demonstração de fraqueza, muito pelo contrário.
    Força sempre! E avante!!!!

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  4. muito legal a contribuiçao do Mauro!!
    já disse outras vezes,vc á uma mae guerreira,nao tem q se sentir culpada de nada!
    bj

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  5. Olá Yanna, saudades de você....estou sempre acompanhando e só tenho uma coisa pra te dizer,DEUS FEZ A ESCOLHA CERTA.....que mãe Ele poderia ter dado a Antonio???? Parabéns, e comentários desse tipo é tão ridículo, que a pessoa nem teve coragem de se identificar, não é tão feliz???? Mais deixa isso pra lá...continue sua luta, firme e forte e deposite sua vida e de seus filhos a Deus, e Ele TUDO fará.
    Ana Luiza

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  6. Yanna, que bom poder corrovorar seu sentimento xom a experiencia de mauro. Chorei com seu relato. Mulher e mãe forte como vc são poucas!

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  7. Mas tira essa confirmacao ...rs...... Deixa o veto ao anonimato, mas as letrinhas......hummm....sao pessimas e servem de nada...bjao e n precisa publicar!

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  8. muitooooo emocionante esse email do mauro imaginei como vai ser avida do anjinho q tem mielo tambem oh meu deus eu so quero ter forcas mais uma fez muito obrigada por esse blog e maravilhoso ver experiencias isso ta me ajudando muito vc e uma mae guerreiraq deus continue de tanto forcas tds os dias

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    1. Amiga, conte comigo sempre! Me escreve com seu contato yanna.rocha@gmail.com. Estamos bem pertinho uma da outra. Quero conhecer seu pequeno.

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